quinta-feira, 16 de abril de 2020

Mais jovem a morrer de coronavírus no Rio Janeiro, estudante sonhava em ser médica

Kamilly Ribeiro, de 17 anos, morreu após ficar 20 dias internada na UTI do Hospital Moacir do Carmo, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. (Foto: reprodução/redes sociais)
O coronavírus fez, na terça-feira, a vítima mais nova no Estado do Rio. Kamilly Ribeiro, de 17 anos, morreu após ficar 20 dias internada na UTI do Hospital Moacir do Carmo, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ela foi testada ainda em março, mas o resultado demorou nove dias para ser concluído.

A adolescente não tinha doenças preexistentes e deu entrada no hospital com sua mãe. Kamilly foi levada para o CTI no mesmo dia. Sua mãe, que também testou positivo, já se recuperou. As redes sociais da jovem foram inundadas de depoimentos de amigos e parentes. Neles, eles contam que Kamilly sonhava virar médica.

Uma amiga de Kamilly contou que poucos dias antes de ser diagnosticada ela pediu para os amigos e familaires respeitarem o isolamento social:

— Na última vez que nos encontramos ela comentou que estava se preparando para tentar fazer medicina. Minha ficha ainda não caiu com sonhos interrompidos por um vírus. Ela ainda postou pedindo para todo mundo ficar em casa. Ela era uma menina ótima— contou Juliana Oliveira.

Kamilly estudava no Colégio Estadual Barão de Mauá, em Xerém. Estudiosa e religiosa, iria tentar fazer a prova do Enem este ano para uma faculdade de Medicina. Amigos de Kamilly ainda contaram que a meta dela era estudar em Petrópolis, pois o caminho de casa até a faculdade seria menos perigoso. Após ser diagnosticada, ela chegou a mandar uma mensagem para uma amiga pedindo que orassem por ela.

Caxias foi uma das últimas cidades da Baixada a tomar medidas de isolamento social. O cenário de vias e estabelecimentos cheios durante o início da pandemia chamou a atenção por dias, apesar de o profeito Washington Reis, na época, afirmar ter rondas para conter esse comportamento. A cidade já tem 121 casos confirmados e 20 óbitos. Reis também contraiu a doença e foi transferido ontem para a UTI do Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo.

Pelo segundo dia consecutivo, a cidade do Rio registrou o maior número de mortes em 24h por coronavírus desde o início da pandemia: 27. Agora são 167 mortes somente na cidade, sendo 52 na rede municipal de saúde. Copacabana é o bairro com mais óbitos, porém a Zona Oeste começa aparecer nesta triste estatística. Campo Grande divide com a Tijuca o segundo maior números de mortes, 9 cada, mas é apenas o sétimo com mais casos.

Zona Oeste é ‘bomba-relógio’, com casos de coronavírus prestes a explodir, preveem especialistas

A percepção de que o carioca afrouxou o distanciamento social no últimos dias pode ser confirmada pelos números. Um monitoramento feito pela Prefeitura do Rio mostra que a Zona Oeste foi a região que mais concentrou aglomerações, desrespeitando a recomendação de quarentena. Os números de casos registrados na região ainda não são altos, mas, para especialistas ouvidos pelo GLOBO, é uma questão de tempo. A Zona Oeste já tem 1 a cada 4 casos registrados na cidade e 30% dos óbitos, mas esse número deve aumentar. A Barra da Tijuca é o bairro com mais casos de Covid-19 confirmados no estado do Rio, com 178 casos.

De acordo com Flávio Codeço, biólogo e professor da Fundação Getúlio Vargas, a região é uma “bomba-relógio” por ter muitas pessoas que saem para trabalhar na região central da cidade, além de haver comunidades com moradias que dificultam o isolamento:

— Já são bairros que devem estar tendo uma grande transmissão, mas que ainda não aparece, pelo número reduzido de testes. A Zona Oeste é uma bomba relógio por ser uma região em que há muitas comunidades grandes e com habitações que dificultam as medidas de isolamento. Na dengue, por exemplo, em que o contato não é um fator de transmissão, é uma área muito afetada — analisa.

Uma parceria entre o município do Rio e a Tim permite ao Centro de Operações (COR) detectar aglomerações na cidade por meio dos sinais de celular. Ontem, o pico de concentração de pessoas foi às 10h em Jacarepaguá, com quase 8 mil sinais simultâneos. Anteontem, o campeão foi Santa Cruz, com 3.860 pessoas por volta das 15h.

O calçadão de Bangu, ontem, estava lotado. Embora o comércio formal estivesse de portas fechadas, os ambulantes tomaram o local. Uma multidão também foi até uma agência da Caixa Econômica no bairro para tentar regularizar o CPF e conseguir se cadastrar no programa de auxílio do governo federal.

Durante o feriado de Páscoa, os bairros da Zona Oeste também foram líderes em aglomeração. Na sexta-feira, Cosmos, Jacarepaguá, Bangu, Santa Cruz e Campo Grande lideraram a concentração de pessoas. No domingo, Ilha do Fundão (Zona Norte), Bangu, Santa Cruz, São Cristóvão (Zona Norte) e Guaratiba.

A região também concentra o maior número de denúncias de aglomerações. O canal da prefeitura que recebe relatos já atendeu mais de 2 mil chamados, uma média de 150 por dia. Os bairros mais demandados são: Campo Grande, Centro, Bangu, Realengo, Tijuca, Santa Cruz, Barra da Tijuca, Copacabana, Taquara e Recreio.

Pneumologista: máscara deve ser usada mesmo ao ar livre

Para a pneumologista e pesquisadora Margareth Dalcolmo, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, é necessário reforçar a importância do isolamento social na Zona Oeste:

— Não temos a menor dúvida que os vetores de crescimento são para essas áreas. As lideranças locais precisam tentar conscientizar a população. Não vai só aumentar o número de casos, mas o de óbitos também.

Ela ainda alerta sobre a necessidade do uso de máscara e de evitar aglomerações, mesmo em ambientes abertos, como feiras livres:

— Ainda temos dificuldades culturais no uso da máscara, mas que aos poucos estão diminuindo. É uma ilusão achar que ao ar livre você está protegido contra o vírus. Se uma pessoa falar a menos de dois metros de distância, você pode se contaminar — afirma.

Outro levantamento pela empresa de inteligência artificial Cyberlabs, que calcula a circulação de pessoas nas ruas por meio de videomonitoramento de vias públicas cariocas, a circulação aumentou em Jacarepaguá, Centro e Barra da Tijuca ao longo da última semana. O monitoramento é feito pela empresa através de 400 câmeras espalhadas pela cidade. Em Ipanema, Leblon, Copacabana e Botafogo foi percebido uma redução do movimento.

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