domingo, 10 de maio de 2020

Professora cria grupo de apoio para mães que perderam bebês na PB: 'histórias de dor e amor'

Mães que perderam bebês compartilham experiências em reunião de grupo de apoio — Foto: Grupo Reconforto/Youtube/Reprodução

“Você perde todas as esperanças ali e é difícil se reconectar novamente. É como se estivéssemos maternando na ausência. Você sente o vazio do bebê que não chegou”. O desabafo da jornalista e professora universitária Adriana Alves, de 41 anos, resume o sentimento após a perda do filho Dante, no quinto mês de gestação. Como forma de ressignificar a dor, ela criou um grupo de apoio, em Campina Grande, para mães que perderam os bebês.


Logo que sentiu a ameaça da perda, Adriana, que é pernambucana e mora na Paraíba, percebeu que não enfrentaria apenas a tristeza. Mesmo sendo medicamente bem assistida, ela viveu na pele que o sistema de saúde ainda não está preparado para acolher as mães que perdem os seus bebês.

“As mães ainda não têm uma assistência específica. Fiquei na mesma ala que outras mulheres que tiveram seus bebês e ficava ouvindo choro de neném. Não tinha um psicólogo par dar uma força ou um assistente social. Ainda não existe esse protocolo. Ainda existe muita desumanização”, pontuou.

Durante a convivência desleal com o luto, foi inevitável buscar ações de apoio para a dor que havia se tornado realidade. Como não achou iniciativas na cidade em que mora, se inspirou em projetos semelhantes em outros estados, encontrados por meio de pesquisas em redes sociais, para dar um novo significado o que sentia.

“Você não perde só o filho, mas sonhos, planos e projetos de vida. Vai embora toda a materialização desse projeto”, prosseguiu a professora que já é mãe de Heitor, de 10 anos.

O nome do grupo tem um significado especial. Ele é chamado de “Reconforto”, palavra que de cara traduz a intenção das mães que se apoiam nos momentos mais difíceis que precisam enfrentar.

O começo das atividades também não foi obra do acaso. O movimento começou, de fato, no dia 15 de outubro do ano passado, data escolhida para a “Sensibilização da Perda Gestacional Infantil no Mundo”, momento importante para militantes da causa.

Conforme Adriana, a iniciativa tem a intenção de “reforçar e engrossar esse coro de 'mães de anjos' que têm essa dor negligenciada. Tornar a dor visível, ter ressonância na sociedade, ter perdas reconhecidas e legitimadas porque elas ainda não são (mães), é um luto invisível”, destacou a professora, acrescentando que a solidão é um dos castigos dessa caminhada.

“Muitas ‘mães de anjo’ na região ficam solitárias porque é uma dor muito nossa. Mas quando uma perde, a outra perde também. É como se as ‘mães de anjo’ fossem espelhos uma das outras. A gente vai se reconhecendo, criando empatia e uma sororidade muito grande”, explicou.

Professora cria grupo de apoio para mães que perderam bebês na PB — Foto: Adriana Alves/Arquivo pessoal
‘Para as estatísticas o seu bebê não existiu’, diz mãe

Adriana confessou que um dos momentos mais difíceis foi ter saído do hospital sem nada que comprovasse a vida do filho que se foi, a não ser o amor que sentia junto com o aperto no peito provocado pela despedida.

“A gente não pode registrar o bebê. Para as estatísticas o seu bebê não existiu. Não tem o protocolo de enterro, é muito duro”, disse.

O cenário que a jornalista descreveu acontece porque a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como aborto a interrupção das 22 semanas completas de gestação, quando o peso do bebê ao nascer é normalmente de 500 gramas. Nesses casos, as mães não têm o direito de registrar os bebês, porque a literatura médica considera que eles não nasceram. A notificação é feita apenas no prontuário médico da mulher.

“É difícil mudar essas regras. Eu não expulsei o bebê, eu tive o bebê. É muito duro não ter o registro. Por isso é um tema que merece essa voz e os grupos de apoio estão se fortalecendo”, enfatizou.

Na Paraíba, existe uma lei que garante tratamento humanizado a mulheres gestantes, em trabalho de parto ou em situação de aborto, mas segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES) não foi possível identificar como esse trabalho é feito nas maternidades localizadas no estado. Ainda segundo a SES, não é possível quantificar números de abortos que acontecem em unidades hospitalares estaduais.

Adriana estava no quinto mês de gestação quando perdeu o filho Dante — Foto: Adriana Alves/Arquivo pessoal

‘Histórias de dor e amor’

“Histórias de dor e amor” foi o tema do primeiro encontro do grupo, pautado pelos relatos das experiências vividas pelas integrantes. Esse também é o mote da campanha do Dia das Mães, contada no perfil do Instagram do projeto, onde as histórias delas são compartilhadas como forma de homenagear os bebês.

As reuniões presenciais entre as integrantes acontecem geralmente uma vez por mês, são guiadas por um tema central de reflexão e intermediadas por uma psicóloga que também é 'mãe de anjo'.

Esses encontros presenciais foram suspensos temporariamente por causa da pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. A medida segue as recomendações de órgãos de saúde para evitar a disseminação da infecção.

No entanto, os trabalhos continuam. Uma das ações mais recentes foi a confecção e distribuição de certificados de “Amor Eterno”, que aderiu a participação de mulheres até de outros estados brasileiros.

Conforme Adriana, cerca de 40 mulheres são atuantes no projeto. O grupo é mediado por redes sociais, onde os trabalhos de conscientização são feitos.


O significado de ‘mãe de anjo’

A expressão “mãe de anjo” foge do senso comum para dar significado aos filhos que foram gerados. Para elas, os bebês não morrem, mas materializam como seres celestiais que representam pureza.

“Nossos bebês sempre serão esses anjos de luz. Iluminam da forma deles as nossas vidas aqui. Temos as tempestades, mas ao mesmo tempo, eles ressignificam as perdas através desse amor que é devotado a eles”, declarou.

Mãe de Adriana também perdeu um filho. Foto: Adriana Alves/Arquivo pessoal
A metáfora dos ‘bebês arco-íris’

A fundadora do grupo Reconforto explicou que são chamados de 'bebês arco-íris' aqueles que nascem após o processo de uma perda e ressignificam os momentos para as mães. Esses recém-nascidos representam esperança, alegria e felicidade.

Dizer que por trás de uma mulher forte sempre existe outra que a inspirou faz todo sentido para Adriana. Ela contou que ela não é a primeira “mãe de anjo” da família. Sem conseguir conter a emoção revelada pelo choro e provocada pela saudade, ela lembrou da mãe Vera Lúcia Alves, que mora no estado vizinho, Pernambuco.

“Ainda é um tabu [a perda gestacional], a morte é um tabu. Minha mãe nunca deixou de falar. Ela ressignificou a perda dela com outros [três] filhos . A gente sempre soube da história. Eu acho que isso lindo”.

Adriana ressaltou ainda que não há receita para se recuperar após a partida de um filho e que um novo bebê não substitui o que se foi. Ela conseguiu se reerguer com o trabalho realizado no projeto, voltando à paixão antiga de escrever e se reconectando espiritualmente. Mas cada mãe possui um jeito único de fazer isso.

Sarah perdeu três bebês durante duas gestações e garante que ressignificou a dor — Foto: Sarah Cunha/Arquivo pessoal
Grupo se estabelece como lugar de fala, diz psicóloga

Os resultados gerados pelo grupo são perceptíveis ao longo dos dias partilhados entre as mães. O feedback é de que uma reconforta a outra. Uma das integrantes que conseguiu se reerguer após os encontros foi a professora Sarah da Cunha, de 26 anos. Ela contou que fazer parte de uma comunidade representou muito no processo de recuperação, período em que enfrentou os clichês que ouvia.

“Muitas vezes me senti sozinha porque as pessoas insistiam em dizer coisas como ‘ah, logo vem outro’ ou ‘você não sabe o que é ser mãe’. Mas eu já me sentia mãe, pois uma vida se formou no meu ventre, é claro que sou mãe”, reforçou.

As perdas gestacionais de Sarah aconteceram no ano passado. A primeira delas em janeiro e a segunda em outubro, quando ela estava grávida de gêmeos. Mesmo triste, ela acredita que o luto lhe reservou a mensagem da fertilidade, que ela acreditava não existir por causa de outros problemas de saúde. No momento, ela faz um tratamento para identificar os motivos das perdas.

A psicóloga Gabriela da Silva Soares explicou que o grupo assume a proposição de um espaço de fala para as mães. Por meio das experiências umas das outras, elas se reconhecem.

Ainda conforme a psicóloga, embora as perdas prematuras não tenham tanta visibilidade, não deixam de ser significativas para as mães que não encontram uma receita para a recuperação emocional, mas que passam ter a lembrança do filho presente, mas não com dor.

Primeiro reunião do Grupo Reconforto para mulheres que perderam bebês — Foto: Grupo Reconforto/Youtube/Reprodução
Lei garante tratamento humanizado a mulheres na Paraíba

Foi sancionada no dia 16 de maio de 2019, a lei n° 11.329, que garante tratamento humanizado a mulheres gestantes, em trabalho de parto ou em situação de aborto na Paraíba.

De autoria da deputada Cida Ramos (PSB), a lei busca prevenir e assegurar às mulheres de violência obstétrica, abuso físico, violência emocional, discriminação, entre outros. Os estabelecimentos de saúde públicos e privados estão proibidos de ignorar as demandas da mulher atendida, recusar ou retardar o atendimento, transferir a mulher para outra unidade de saúde sem que haja garantia de vaga e tempo hábil de trabalho de parto para chegar ao local sem prejudicar a saúde da mãe e da criança, dentre outros impedimentos.

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