segunda-feira, 1 de junho de 2020

Menino morto em Planalto descreve mãe como 'maravilhosa' em trabalho escolar


A motivação da morte de Rafael Winques, de 11 anos, em Planalto, no Norte do Rio Grande do Sul, ainda é um mistério. Durante a investigação da Polícia Civil, foi encontrada uma tarefa escolar no quarto do menino, que a equipe da RBS TV teve acesso. No trabalho, ele precisava completar a frase "Minha mãe é...". Rafael escreveu: "Maravilhosa".

Segundo as autoridades, a mãe Alexandra Dougokenski disse em depoimentos que deu medicamentos ao filho. Ela alega que não teve a intenção de matá-lo. Após a morte, a mulher escondeu o corpo. Ela está presa no Presídio de Guaíba.

A polícia já ouviu os depoimentos de 30 pessoas durante a investigação. Em um vídeo, do último Dia das Mães, o menino declama: "A voz da minha mãe é muito amor e carinho. E foi essa voz que me fez sorrir pela primeira vez. As mãos de minha mãe são lisas como um sabão e macias como um algodão".

A promotora Michele Kufner diz que não sabe como a mãe, descrita como zelosa pela comunidade, pode ter cometido o crime. “Acredito que esse seja o questionamento que todas as pessoas estejam se fazendo neste momento”, afirma.

Rafael é citado como um bom aluno, tranquilo, que adorava brincar com o celular e o vídeo game.

“Guri esperto, sabido, não mexia, não incomodava ninguém”, comenta o pai, Rodrigo Winques. “Era um anjo”, acrescenta.

O caso


No dia 15 de maio, a mãe de Rafael, Alexandra Dougokenski, comunicou ao Conselho Tutelar que o filho teria desaparecido.

“Diversas pessoas se mobilizaram durante 10 dias procurando: colegas de escola, professores, amigos, conhecidos, familiares”, afirma a promotora.

A mãe chegou a dar uma entrevista à RBS TV dizendo que queria o filho de volta em casa.

“Tudo que a família quer é noticias do Rafael. É o Rafael em casa de novo. Porque tá todo mundo desesperado.”

As autoridades, no entanto, começaram a desconfiar do comportamento da mãe. “Chamava atenção, inclusive, o controle emocional que ela mantinha naquela situação”, acrescenta a promotora.

“A Alexandra em momento algum derrubou uma lágrima”, relata Jaqueline Souza Nesnerovicz, mãe do melhor amigo de Rafael.

Depois de algumas contradições, 10 dias após anunciar o desaparecimento, a mãe confessou que havia dado medicamentos ao filho. Segundo ela, ele estava agitado e, por isso, deu dois comprimidos de um remédio para controlar a ansiedade.

"Ela confessou pra nós, a princípio, que havia ministrado medicação em excesso e, depois de verificar que a criança não tinha mais sinais vitais, ela teria preparado aquela amarração pra carregar o corpo até o local em que deixou”, descreve o delegado Ercílio Carletti, que conduz a investigação em Planalto.

Laudo aponta esganadura; defesa nega

Rafael morava com a mãe e o irmão mais velho, de 16 anos, em uma casa. De acordo com as investigações, após constatar que o filho havia morrido, Alexandra arrastou o corpo do menino até outra residência próxima, que estava desocupada.

Um laudo preliminar do Posto Médico-Legal de Carazinho indicou que Rafael morreu por asfixia mecânica por estrangulamento. A polícia trata o caso como um homicídio doloso e aguarda os demais laudos do Instituto-Geral de Perícias.

“Ela vai no quarto, o menino com a boca roxa, gelado, sem batimentos. Eu acredito que pelo medo, decide ocultar o cadáver”, comenta Jean Severo, advogado de Alexandra. “Pra tirar o corpo do menino do quarto, ela precisou tirar essas cordas, e machuca um pouco o pescoço. Não houve esganadura. Se ela tivesse dolo, teria as mãos no pescoço, que é a esganadura. Não é o caso”, garante.

De acordo com o presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais, Marcos de Almeida Camargo, dois comprimidos de ansiolítico seriam insuficientes para matar a criança.

“Em que pese o fato de se considerar ser uma criança, de não ser um adulto, mesmo assim, a princípio, teria que ser uma quantidade de comprimidos muito maior para que você tivesse uma morte mais rápida — não digo instantânea —, que não desse sequer tempo de tentar algum tipo de socorro.”

Participação de terceiros é investigada

Isaíldes Batista, avó de Rafael e mãe de Alexandra, admitiu que tinha o medicamento citado pela filha. Os comprimidos de Diazepam seriam de outro filho dela, irmão de Alexandra.

“Se ela deu, eu não sei. Acho que seria verdade. O remédio teria partido daqui, sim, que eu comprava pra esse meu filho, que às vezes ele não dormia”, justifica.

Na noite da morte, o padrasto de Rafael disse que estava trabalhando, o que foi confirmado pelos investigadores.

“Se ela agiu sozinha ou não, os próximos passos da investigação é que poderão nos apontar”, explica a chefe de Polícia do Rio Grande do Sul, Nadine Anflor.

A promotora não tem certeza se a mãe agiu sozinha ou se teve ajuda de outras pessoas.

“É possível que ela tenha recebido auxílio de alguém, até por causa do tamanho da criança: ele tinha por volta de um 1,55m e pesava por volta de 40kg, e a mãe não é muito maior. Ela deve ter por volta de 1,60m, e não é uma mulher que tenha uma força diferente das outras".

“Mãe protege, mãe cuida, mãe zela, dá a vida pelo filho. Mãe não tira a vida. Mãe não faz o que ela fez”, comenta a mãe do melhor amigo de Rafael.

Novo depoimento

No sábado (30), Alexandra prestou novo depoimento no Palácio da Polícia, em Porto Alegre, e reafirmou a tese de homicídio culposo. A promotoria discorda.

“Ela responderia por homicídio doloso qualificado e ocultação de cadáver. A pena do homicídio doloso varia de 12 a 30 anos”, afirma a promotora.

A polícia ainda aguarda ainda o resultado das perícias no corpo de Rafael e em objetos da casa.

“O irmão precisa ser ouvido. Ele estava na casa no dia em que os fatos aconteceram, então vai poder ser aí uma peça de ligação de alguns pontos que estão sendo levantados na investigação”, acrescenta a promotora.

Segundo as autoridades, a morte de Rafael tem semelhanças com outro caso que comoveu o país: a morte de Bernardo Uglione Boldrini. A madrasta, o pai e mais duas pessoas foram condenados no ano passado.

Crime choca cidade de 10 mil habitantes

O crime chocou a pequena cidade de Planalto, que tem pouco mais de 10 mil habitantes.

“Ninguém chegou e disse: 'Ó, eu percebi que tinha alguma coisa, percebi briga'. Nada. Aparentemente tudo normal, uma mãe cuidadosa", descreve a conselheira tutelar Denise Vojniek.

“A gente vai guardar pra sempre. Mesma coisa que tirar um pedaço da pessoa”, lamenta o pai.

Rafael estudava no Instituto Estadual Padre Vitório, a maior escola de Planalto. Ele estava no 6º ano do Ensino Fundamental. Sentava na parte da frente da sala, e era apontado pelos professores como um aluno inteligente e atencioso, que gostava especialmente de matemática.

“O Rafa sempre era conceito ótimo. Ele sempre enxergava a mãe dele com muito orgulho. A mãe era tudo pra ele. Era a pessoa que ele mais amava no mundo, era a pessoa que ele mais confiava. Era o centro da vida dele”, diz a professora Ladejane Ravagio.

A mãe do amigo ainda não se conforma.

“Me dá dor no coração, porque ela pode ficar 20, 30 anos, não sei quantos anos presa, mas o Rafael não vai voltar mais”, emociona-se Jaqueline.

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